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Profissão: Cambista

A história e os esquemas de Campo Grande, sujeito “gente boa” que ganha (muito) revendendo ingressos ao torcedor brasileiro

Por Thiago Braga, especial para Placar

Campo Grande é cambista há 31 anos. Nascido na favela do Barbante, em Campo Grande, no Rio de Janeiro, herdou do bairro o apelido que carrega até hoje. Começou no ramo cambista ainda na adolescência.

Campo Grande mora na capital paulista há 21 anos. E fica acanhado quando perguntamos quanto fatura. “Tiro o suficiente para sustentar cinco filhos.” Mas quanto é isso? “Em média, 2500 reais por mês, porque é tudo relativo. Tem mês que estoura e eu ganho muito, mas tem outros que é fraco.”

Também já passou por muitos apuros, como ser espancado na porta do Pacaembu e ser detido. “Estava no Pacaembu para comprar ingressos para Corinthians x River, pela Libertadores de 2006. Quando me deram os ingressos, a torcida do Corinthians viu que eu era cambista e veio para cima. Me espancaram e quebrei o maxilar. Fiquei um mês sem poder falar.”

As histórias vão saindo naturalmente. É assim que Campo Grande conta como era o trabalho antigamente. “Pegava 200 ingressos direto das mãos dos bilheteiros, sem pagar. O que eu vendesse, dividia com o bilheteiro. O que sobrava eu tinha que devolver até o fim do primeiro tempo”. Ele garante que o método não existe mais. “Se ainda existisse, eu estaria envolvido, porque é um negócio muito bom.”

NO RIO É MAIS FÁCIL

Ele diz que no Rio de Janeiro as coisas são mais fáceis. “Lá, as minhas fontes têm esquemas dentro dos clubes. A verdade é que esse esquema interessa aos clubes. Aqui mesmo, no Morumbi, a diretoria do São Paulo fala que a capacidade do estádio é de 75000 pessoas. Mas eu garanto que cabe mais.

No mínimo, 80000. E por que eles fazem isso? Para ter que dar menos ingressos para os times visitantes”, diz. “Estão fazendo dois ingressos com o mesmo número de série. Eles são chamados de ‘seguidinha’ e não são falsos. Ingresso falso é outra coisa. Esses ingressos entram e passam [na catraca]”, diz.

O assessor especial da presidência do São Paulo, João Paulo de Jesus Lopes, reconhece que no Morumbi cabem mesmo 80000 pessoas. Mas esclarece que os órgãos públicos só permitem a venda de 72000 ingressos. Diz que já ouviu falar da “seguidinha”, mas acredita que ela não ocorra.

Em muitos lugares do mundo, cambista é profissão. Eles se organizam em associações e são fiscalizados. No Brasil, por iniciativa do Ministério Público de São Paulo, discute-se desde 2005 a classificação do cambismo (venda informal de ingressos) como crime em nossa legislação, o que, para o MP, poderia tornar a repressão mais forte.

Hoje, a venda informal de ingressos não tem classificação específica no Código Penal. “O que eu faço é vender comodidade para os meus clientes. Sou um mal necessário”, acredita Campo Grande, o Big Field.

O ESQUEMA

Com a Lei 10741, ficou instituído que maiores de 60 anos teriam direito a meia-entrada nos eventos esportivos.

“Vou na segunda-feira, antes de um jogo importante, até a esquina das ruas Dom José de Barros com a Barão de Itapetininga [centro de São Paulo]. Chego por volta das 6 da manhã”

“Encontro vários velhinhos, que são aqueles que ficam o dia inteiro segurando placas de ‘compro ouro’, ‘vendo atestado médico’. Sabe quanto eles ganham para ficar lá o dia inteiro? Dez reais, mais o almoço”

“Alugo uma van, pego uns 40 velhinhos e pago 20 reais para ficarem 40, 50 minutos lá, até conseguirem o ingresso. Como idoso não pega fila e paga meia-entrada, é aí que ganho meu dinheiro e poupo tempo”

“Sei que estou corrompendo eles, mas pior é o governo, que não faz nada. Eles precisam de trabalho”.