Mano a mano
Por Rogerio Jovaneli, especial para Placar
9/Junho/2008

O técnico do Corinthians fala sobre seu novo clube, mas também sobre o Grêmio e o início no futebol. Você achou que já sabia tudo a respeito dele?
Confira a entrevista:
Conte um pouco sobre o cidadão Luiz Antônio Venker Menezes?
Sou uma pessoa simples, gosto de privilegiar o trabalho. Acredito que esse seja o caminho para você realizar o que quer na vida. Evidentemente, gosto de trabalhar com jogadores profissionais, que se inserem diante desse contexto, de perfil profissional, que queiram buscar algo a mais em suas vidas.
Acho que não tenho muita diferença em relação à maioria dos treinadores. Todos gostam de trabalhar e privilegiar grupos de trabalho, porque é isso realmente que faz a diferença.
Tenho uma carreira relativamente curta e ela vem produzindo bons resultados na comparação com a maioria dos profissionais que optaram por ser técnico de futebol, uma carreira extremamente difícil. Estou satisfeito nesse início.
E sobre a sua época de jogador? Você já era Mano?
Mano começou em casa. Quando nasci, a minha irmã, um pouco mais velha do que eu, disse que tinha nascido o mano. Joguei futebol com esse apelido. Tive uma carreira profissional relativamente curta no interior do Rio Grande do Sul.
Depois, quando me tornei técnico acrescentei o sobrenome, afinal técnico tem que ter uma certa pompa, né?
Que nota você dá pro Mano, jogador de futebol?
Nota sete.
Hoje, o jogador Mano Menezes teria mais facilidade pra jogar?
É difícil comparar épocas diferentes. Você não consegue fazer isso com a precisão e até com a justiça que a comparação propõe. Cada um tem a sua época. Hoje, o futebol está melhor de jogar, porque ele está mais tático.
Depende muito da atuação do profissional, do jogador em si. E eu tinha exatamente essa característica. Me preocupava muito com a parte tática, até pra compensar a minha condição técnica que não era tão diferenciada em relação aos outros jogadores.
Como foi início da sua carreira como treinador?
Talvez com a mesma característica de início de profissão que a maioria dos técnicos. Raramente, começam já dirigindo times de ponta ou equipes profissionais. É natural você começar em categorias de base. Eu comecei dirigindo a equipe júnior do Guarani, de Venâncio Aires, no interior do Rio Grande do Sul.
Fiquei cinco anos treinando a equipe júnior até dirigir, em 1996, o time profissional. Depois, revezei com retornos às categorias de base, no Juventude, no Caxias, no Internacional. Só em 2002 pude dar continuidade em equipes profissionais e não mais retornar à base.
Foi difícil para um ex-gremista trabalhar no Internacional?
Não existe gremista ou colorado pra treinador de futebol. Técnico é técnico de futebol.
Quais foram as pessoas que mais o ajudaram no início da carreira como treinador?
No Internacional, tive a oportunidade de trabalhar com treinadores renomados como Carlos Alberto Parreira, Zé Mário. Depois, tiver a oportunidade de fazer estágio com o Paulo Autuori, que dirigiu, em 1997, o Cruzeiro bi-campeão da Libertadores.
Por ter trabalhado no Grêmio durante dois anos e oito meses, tive muito acesso ao Luiz Felipe Scolari. É um técnico que sempre que tem a oportunidade de falar o seu nome dá uma moral bastante grande.
Em termos de forma de trabalho como treinador de futebol, o que mais te agrada no Felipão e no Luxemburgo, dois dos principais profissionais no país?
Eu tenho alguma coisa de Luxemburgo e também de Scolari. Sou um treinador tático, que procura traçar estratégias definidas para cada confronto. Gosto de trabalhar em uma equipe que joga futebol. Geralmente, minhas equipes fazem poucas faltas.
E também gosto muito de grupo, de trabalhar algumas questões como o Felipão sempre gostou de trabalhar com os seus jogadores. Tê-los muito próximos e estar sempre preocupado com aquilo que eles podem estar pensando. Isso é importante, até para que todos sigam na mesma direção.
Como você avalia o nível dos treinadores brasileiros?
Sem dúvida nenhuma, o treinador brasileiro é um dos melhores do mundo. Trabalhar nas condições que trabalhamos para montar equipes em curto espaço de tempo, produzindo bom futebol e conseguindo fazer resultados no enfrentamento com equipes do resto do mundo, quase sem levar desvantagem ou no mesmo nível na hora da disputa, é algo realmente extraordinário.
Se você disser para um treinador na europa que a cada seis meses ele vai ter de fazer uma equipe nova, vai achar que estamos loucos. E a gente consegue fazer isso. O que nós precisamos para ocupar cargos nos principais clubes do mundo é aliar esse conhecimento que se tem à metodologia de treinamento, além de também se preocupar um pouco com a questão da língua.
Você acha que esses fatores dificultam a inserção do treinador brasileiro lá fora?
Não tenho dúvida. E falta também um pouco mais de união na categoria. O técnico brasileiro não trabalha muito a favor do colega dele. Já os argentinos se protegem muito.
Você gosta de trabalhar com grupo grande ou nem tanto, até para não ter jogador reclamando titularidade na equipe?
Gosto de trabalhar com jogadores tendo comprometimento e funções muito bem definidas no grupo. Não me importa se tenha três jogadores na mesma posição. Eu deixo bem claro pra eles quem é o primeiro, segundo e terceiro.
Boas atuações de um jogador nos treinos podem fazer você alterar o time ou o atleta precisa se destacar no time titular para poder iniciar uma partida entre os 11?
Eu gosto muito de dar tranqüilidade aos jogadores. Jogador de futebol inseguro não produz absolutamente nada. E essa insegurança não poder vir de alterações sistemáticas na equipe. O jogador, estando titular, pode jogar mal, porque faz parte, pode ser substituído no jogo, mas a tendência é que na partida seguinte ele inicie como titular, até que tenhamos uma situação mais definida sobre estar mal ou em uma fase ruim.
Mano, o que foi pra você a Batalha dos Aflitos?
Foi o maior jogo que eu já participei na minha vida. Talvez, a palavra certa nem seja “maior”. Mas certamente foi a partida mais extraordinária em termos de acontecimento. Nunca vi e provavelmente não vou ver uma equipe com sete jogadores em campo vencer uma outra que esteja com 11. Passar pela situação das duas penalidades máximas durante o jogo, toda aquela pressão de vestiário. Vestiário trancado, sem condição de trabalho.
Você sempre acreditou? Teve algum momento naquele jogo que você achou que não daria?
Quando você está envolvido em um jogo como esse não tem muito tempo pra pensar nessas coisas. Tem que estar preparado pra fazer a tua parte. Eu sempre procurei, mesmo com todos aqueles acontecimentos, estar preparado pra fazer o que o treinador tem que fazer.
No fim de novembro do ano passado você manifestou a sua intenção de não renovar contrato com o Grêmio. Aí você fechou contrato com o clube de Parque São Jorge...
Na verdade, houve uma sondagem do Corinthians uns 45 dias antes do último jogo do campeonato Brasileiro. Porque já se falava nos bastidores do futebol que eu não ficaria no Grêmio. Aí eu disse ao Corinthians que provavelmente eles jogariam o último jogo em Porto Alegre (RS) dependendo de um resultado e que, em consideração a isso, por questões de ética e de correção, só voltaríamos a falar, se houvesse interesse, depois do término do campeonato. Minha campanha, minha passagem pelo Grêmio me credenciou a receber muitos convites. Mas eu só conversei com Cruzeiro e Corinthians.
Você gosta desse ambiente, de poder trabalhar em time de massa? É algo que te atrai?
É ótimo. Ter a sua torcida lá a cada jogo para apoiar o time. Você se torna mais forte. Dificilmente jogamos um jogo até agora em que a nossa torcida não tenha sido maioria nos estádios. E isso cria um ambiente mais favorável, diminui um pouco a desvantagem de jogar fora do seu estádio. Por outro lado, torna cada situação muito maior, a repercussão é muito maior.
Das contratações realizadas pelo clube no início do ano, quem mais o surpreendeu positivamente? E quem deixou a desejar?
Particularmente, estou satisfeito com as contratações, ainda mais sem tanta capacidade de investimento, embora não seja normal contratar 15 jogadores. Na verdade, o Corinthians não tinha dinheiro para desembolsar no momento das contratações.
Sempre tinha que criar uma situação de futuro para poder honrar os compromissos. Tivemos que encontrar no mercado jogadores que não tinham custo de vínculo. Simplesmente, trouxemos a maioria dos jogadores com a despesa salarial. Essa é uma realidade que te leva a trabalhar num perfil em que se pode esperar que todos irão dar a resposta positiva.
Comparando essa sua missão de agora do Corinthians com o trabalho de 2005 envolvendo o Grêmio. É diferente, né?
É porque tivemos que montar o time do Grêmio durante a Série B. No Corinthians já tem uma base montada. Quando iniciarmos a competição o time vai ser modificado em pequenos aspectos.
Diferentemente da Série B de 2005, nesta o campeonato é disputado em sistema de pontos corridos. Em 2006 e no ano passado foi assim também. Nessa fórmula de disputa, é mais fácil subir?
É mais justo e favorece para quem tem estrutura e uma equipe melhor. Naquela época, classificavam os oito primeiros para a segunda fase e depois quatro para um quadrangular final. Aquele era um sistema de disputa muito perigoso. Tanto que desde a segunda fase o Grêmio sempre esteve entre os dois primeiros. Nunca ficou fora. Chegou à última rodada liderando o quadrangular. E se perdesse estava fora.
Mano Menezes sonha em ser técnico da seleção brasileira?
É um objetivo. O técnico de clube de ponta do futebol brasileiro deve ter o objetivo de um dia dirigir a seleção do seu país. Mas não é aquela coisa de dormir e acordar pensando nisso, de achar que eu esteja fazendo um trabalho para que daqui a dois anos, para que seja depois da outra copa e tal. Não. Essas coisas vão acontecer naturalmente de acordo com o trabalho que você está fazendo.
E se te chamassem para treinar uma seleção de outro país?
É uma questão de oportunidade, de convite que você venha a receber, da perspectiva de fazer um bom trabalho. Ir por ir, só pra dizer que eu treinei uma seleção, eu não iria.
A maioria dos jovens jogadores brasileiros sonha com uma transferência para o exterior. Você tem por objetivo treinar um time lá fora?
Minha preferência é trabalhar no futebol brasileiro. Temos que dar a nossa contribuição para que o nosso futebol continue sendo o melhor do mundo. Não vejo essa necessidade de sair só por sair. Pode até ser que um dia aconteça, talvez em um momento que seja bom em termos de abertura de perspectiva da realização de um bom trabalho e de conquistar títulos, que deve ser o objetivo de todo o treinador.
Não vejo sentido dirigir um time que lute pra não cair só porque é lá fora. Melhor ficar no Brasil treinando uma equipe com condição de brigar pra ser campeão.

